A Colagem e o Universo Educativo

Na história das Artes Visuais, a colagem é considerada como linguagem artística e expressão visual a partir do Cubismo, implementada por Picasso, com o intuito de unificar o plano das dimensões. Segundo alguns autores, foi Braque quem introduziu a colagem à obra de arte. Posteriormente o Dadaísmo também se inspirou na colagem, criando o seu próprio nome de movimento, ao formar palavras utilizando recorte de letras.



A colagem que surgiu no início do século XX, é o termo utilizado tanto para a técnica, como para o resultado de um trabalho que inclui pedaços de papéis, fotografias, tecidos, entre outros materiais, organizados numa superfície de suporte. A colagem pode ainda incluir outras fontes, como a pintura e o desenho, além de poderem conter elementos tridimensionais.

Para o mundo educativo, a colagem consiste na utilização de sobreposições (analógicas ou digitais), apropriações e recontextualizações, sejam elas bidimensionais ou tridimensionais, sendo que, tudo pode estar incluído nesta definição. As crianças são conhecidas pelo ato de imitar o outro, tanto na maneira de estar, como na maneira de agir, como nas atividades expressivas, e neste sentido a colagem pode englobar tudo isso.


Colagem

O universo educativo é um mundo cheio de métodos e técnicas, que no caso das artes, se torna essencial a sua prática desde muito cedo. A Educação é, e sempre foi importante para toda a população, sendo a única forma de criar uma sociedade civilizada e autônoma. Foram sempre privilegiadas as várias disciplinas de matemática, português, filosofia e história, e nem sempre se permitiu inserir as artes como unidade curricular permanente. Esta falta de saberes artísticos prejudicou muito a sociedade, pois, através das artes é possível evoluir, e é uma mais-valia para aprender a estar e a viver numa sociedade em constante mudança. Torna-nos flexíveis e com pensamentos fluídos, com ideias criativas e formas de estar diferentes. Assim sendo, torna-se essencial que a criança desde cedo seja incentivada a fazeres artísticos e que seja influenciada a criar e a imitar outras obras para que assim obtenha uma maior capacidade intelectual de escolha. O objectivo não é criar artistas, mas sim, criar crianças capazes de desenvolver capacidades intelectuais. Um programa educacional não pode tornar a arte num elemento decorativo ou apenas de lazer, a arte tem de ser ensinada para valorizar e organizar o mundo da criança e para melhor compreender o seu “eu”, consigo e com o meio. Com tesoura, cola e papel, é possível fazer trabalhos que exteriorizam os sentimentos, pois o simples ato de recortar, colar e fazer composições com figuras de diferentes contextos denotam a identidade cultural e social do indivíduo e, até mesmo, os gostos de cada um. Esses atos físicos podem ser um procedimento quando passam a contextualizar aquela figura já recortada numa nova composição, criando um novo contexto que inicialmente parecia impossível e impensável para a figura em questão, tornando seu trabalho interessante e expressivo da sua identidade pessoal. O estudo das artes em qualquer meio, suscita o sentido de novas experiências, construindo um maior campo de valores pessoais. Sendo assim, a colagem como linguagem artística remete ao intelectual e ao físico. O intelectual processa o pensar, o que faz com que certas escolhas estejam ligadas ao próprio gosto de quem está a criar a colagem, usando “aquele pedaço de papel” e não outro. O físico resume-se ao próprio ato de agarrar a tesoura e recortar, para depois colar e construir um contexto visual totalmente diferente do original. Portanto, os dois procedimentos estão interligados entre si, demonstrando que a colagem é um acto profundamente ligado à identidade. A mesma figura pode ter diferentes significados, dependendo de cada pessoa que a cria.

É uma técnica que não necessita de imagens pré-desenhadas nem te materiais próprios. Ela existe num único exercício de colar. O trabalho final da colagem pode ser original, criando uma imagem visual inovadora e nunca antes vista, mas por outro lado, apesar de original, será sempre uma cópia de outro. Esta cópia existe pelo facto de a colagem ser uma apropriação de objecto e imagens já existentes que apenas são recortados ou rasgados, e depois colocados noutra posição. Ou seja, na composição da colagem existe um paradoxo visual entre o original e pessoal e entre a apropriação. Estes dois mundos são interessantes de serem trabalhos com as crianças, pois ensina-as a verem o que as rodeia de várias formas, e permite-lhes fazerem adaptações de situações reais. É uma técnica educativa positiva, que além de desenvolver a capacidade criativa através da construção de imagens novas e originais.

A técnica da colagem é um meio de sensibilizar as crianças para a construção e conhecimento de diferentes mundos e de diferentes soluções. Nesta actividade não é necessário que os elementos a colar tenham afinidade entre si, basta serem capazes de suportar cola, e de no final criarem um novo valor estético. É uma técnica positiva a ser aplicada nas atividades com as crianças pela desconstrução do paradigma da semelhança, que tem em muitos casos sido a culpa do abandono das artes pelos adolescentes. É incutido a disciplina da semelhança e do “igual” nas expressões plásticas na escola, o que desmotiva qualquer aluno quando percebe que não consegue elaborar uma representação fiel à imagem apresentada. Esta falta de capacidade gera um conflito interior de inferioridade que leva ao abandono das artes. Com a utilização da técnica da colagem não é necessário uma fiel representação de uma obra, mas sim, é estimulada a reinvenção de uma nova imagem e maneira de olhar. Esta é uma forte forma de estimular a criatividade nos jovens.


Modernidade Pedagógica

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